Uma
reportagem da revista Claudia do mês de março fala sobre o crescimento no
Brasil, do movimento batizado lá fora de slow parenting, que defende a
desaceleração da rotina dos filhos para dar a eles tempo para explorar o mundo.
Os partidários desse conceito garantem que
encher as crianças de atividades visando prepará-las para o futuro – para o
mercado de trabalho – e cobrar a perfeição pode gerar um efeito contrário do
esperando, gerando adolescentes e adultos menos criativos, apáticos,
desinteressados e sem iniciativa.
É claro que os pais querem que
seus filhos sejam felizes e saudáveis e também atinjam plenamente seu
potencial. Porém para alcançar esse objetivo, precisamos relaxar e buscar o
equilíbrio entre fazer muito ou pouco por eles. É fundamental que a criança
seja ouvida e observada, porque não pode ser vista como um projeto ou produto
que pode ser moldado como uma obra de arte, mas é alguém que se desenvolverá
bem desde que tenha espaço para protagonizar a sua história. No decorrer de sua
vida a criança deve ser preparada gradualmente para lidar com o risco, o medo e
o fracasso. Se a criança tem a vida completamente planejada, não lhe sobra
tempo para descobrir quem realmente é e acaba tendo dificuldade em lidar com o
inesperado. De acordo com a pedagoga Jamile
Magrin Goulart Coelho, diretora do Espaço Educacional, este movimento está
desafiando a cultura da velocidade que impede que as experiências sejam vividas
em profundidade, que multiplicam atividades em nome da busca por sucesso e que
valorizam quantidade e não qualidade na educação.
Hoje, é
cada dia mais comum as crianças terem uma agenda de executivos, repleta de
atividades extras. Com isso, não sobra tempo para brincar e brincar é explorar
o desconhecido, dar forma, cores e sons a sonhos e, com isso, aprender a fazer
a nossa leitura do mundo a partir do aprendizado sinestésico, em que utilizamos
a maioria dos sentidos.
Até 6
anos de idade, o aprendizado tem que ser lúdico, tem que dar espaço para a
criatividade, para a interação juntamente com os limites que incluem atitudes de respeito ao outro, saber esperar a
vez, saber ganhar ou perder. O aprendizado sinestésico deveria ocupar
quase que 100% do tempo nesta faixa etária e a brincadeira e o prazer em
aprender deveriam caminhar de mãos dadas.
"Mas
a cobrança por sucesso é cultural e vem de vários lados, de uma sociedade
obcecada por perfeição." A busca exagerada por sucesso por parte dos pais
vai queimando etapas importantes na vida das crianças. Essa situação acaba
associando aprendizado com desmotivação, mata a curiosidade, que é o motor da
vontade de descobrir como tudo funciona, e alimenta o medo do fracasso.
"O
problema do exagero de atividades extracurriculares é que deixa a criança
cansada e sem foco. O desenvolvimento neurológico sadio depende disso, afirma a
neuropsicóloga Adriana Foz, e queimar etapas trará consequências mais
adiante." Um
número cada vez mais significativo de crianças e jovens chega à escola com esse
quadro de desmotivação e com problemas como Déficit de Atenção e
Hiperatividade e depressão. Esses problemas, segundo a Organização
Mundial da Saúde, estão presentes em três a cada 10 jovens, conforme informação
da revista Claudia.
É obvio que dominar outros
idiomas tornou-se um pré-requisito para o sucesso profissional em muitas áreas
e praticar esportes é importante para a saúde. Entretanto, o problema é o
exagero de atividades extra curriculares. Além de gerar ansiedade, pode
atrapalhar o desempenho acadêmico. O cérebro precisa de tempo para processar
informações” diz a neuropsicológa Adriana Fóz, uma das coordenadoras do Projeto
Cuca Legal, do Departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP). Por isso, como pais,
precisamos ter bom senso e buscar o equilíbrio. Brincar é uma forma de
construção do conhecimento sobre o mundo e o processo de aprendizagem nos
acompanha a vida toda. O adulto realizado profissionalmente tem uma forte
participação da sua "criança" em tudo que faz, pois ela é responsável
pela nossa criatividade, pela nossa curiosidade, pela busca da inovação.
Aprender
a aprender é nosso desafio constante. Por isso, vamos deixar que as crianças
vivam sua infância no seu tempo, no seu ritmo, explorando o mundo à sua volta
com curiosidade e encantamento.

