LUTO EM CRIANÇAS (Arbulo, B., García, C.,
Rodríguez, R. // Fdez. Márquez, L,)
O luto é
o processo de adaptação que restaura o equilíbrio pessoal e familiar rompido
com a morte de um ente querido.
O
luto pela perda de um ente querido é um processo abstrato e complexo e, por
isso, a forma de o abordar e compreender
depende de vários aspectos importantes, tais como a idade da criança, o nível
de desenvolvimento cognitivo e os fatores emocionais envolvidos. Quando a morte
de um ente querido ocorre, evitar , por todos os meios, que as crianças
assistam, vejam ou ouçam os eventos tal como eles sucedem, na expectativa de os
proteger desse sofrimento, não é uma prática correta.
A forma como as crianças
percebem a morte
As
crianças têm seu próprio conceito de morte. Cada criança vê a morte de acordo
com sua idade, com a sua formação intelectual, contexto escolar e familiar. Tal como noutros processos de desenvolvimento,
as crianças têm um ritmo individual. É importante perceber que todas as
crianças experimentam uma vida única e que têm a sua própria maneira de
expressar e controlar seus sentimentos.
Para
as crianças de 3- 4 anos a
morte é temporária e reversível não estando ainda o conceito definido. Esta
ideia é reforçada por verem personagens de desenhos animados que
"morrem" e "renascem", sendo esta ideia característica do
pensamento mágico desta idade. É, portanto, necessário entender quando nos
questionam uma e outra vez se a pessoa (falecida) vai voltar. Na sua mente, a
pessoa que morreu ainda come, respira ou vai acordar a qualquer momento para
voltar a uma vida plena.
As crianças dessa idade levam as coisas de forma
muito literal. Muitas pessoas para explicar a morte de alguém usam expressões como
"desapareceu" ou "está
adormecido para sempre " . Isso pode gerar o medo de não ser capaz de
acordar. Este gênero de expressões pode alimentar o medo de morrer ou de ser
abandonado, e criar mais ansiedade e confusão. Para ajudar as crianças a compreender o que é
a morte, é útil referir-se aos vários momentos da vida quotidiana, onde
a morte está presente: na natureza, na morte de um animal de estimação. Nesta
fase, a criança expressa a sua percepção da morte através de reações como choro constante. Pode
tornar-se irritadiço, perder o apetite, ter dificuldades em adormecer ou ter um
sono de pior qualidade por manter, constantemente, a busca (ou espera) por essa
pessoa. Entre
as idades de 5 e 9 anos, a
maioria das crianças começam a perceber que a morte é definitiva e que todas as
coisas vivas morrem, mas continuam a pensar que as pessoas que as rodeiam, as
mais próximas, os seus entes, nunca morrerão. Depois de 9 anos, as crianças pensam como os adultos, que morrer é
natural, físico, universal e irreversível que todos os homens morrem e eles
próprios vão morrer um dia. No entanto, ainda não estão plenamente conscientes
da verdadeira realidade.
Deve-se
permitir, a partir dos 9 anos que a criança assista parte dos rituais funerários.
Deve-se permitir que a criança assista e participe no velório, funeral ou
enterro. Participar nestes eventos pode ajudar a compreender o que é a morte e
começar melhor o processo de luto. Se possível, é aconselhável que antecipe o
que vai ver e ouvir e explicar a razão desses rituais. Se a criança não quiser
ver o corpo ou participar de qualquer ato, não se deve forçar ou fazê-lo sentir-se
culpado por não fazer.
Quando e como dar a notícia.
Embora
a tarefa seja muito dolorosa e difícil, o mais adequado é fazê-lo o mais rápido
possível. Após a primeira hora de maior drama e confusão, procure um tempo
adequado e um local apropriado para explicar o que aconteceu de forma simples e sincera. Por exemplo,
podemos dizer: "Tenho uma coisa muito triste para te dizer: o avô estava
muito doente e morreu. Por isso já não vai estar mais conosco.”
Explicar
como ocorreu a morte.
Deve
esforçar-se por fazê-lo com poucas palavras. Por exemplo: Se for um acidente,
podemos dizer que ficou muito, muito, muito gravemente ferido, e que os médicos
e os enfermeiros fizeram o seu melhor para "consertar" o corpo, mas
que às vezes o ferimento é tão grave que os medicamentos não podem curar.
O que podemos dizer se perguntar por quê? Por que
está morto? Por que eu? Estas são perguntas difíceis de responder. É certo dizer que
nós também fazemos as mesmas perguntas, ou simplesmente que não sabemos a
resposta. É bom saber que todos os homens devem morrer e que um dia nos
acontece a todos. É importante neste momento permitir às crianças expressarem
seus sentimentos e acompanhar suas reações e emoções, deixando-as confortáveis
e seguras.
Recomendações sobre o
luto infantil
Existem várias
alternativas que podem ser fornecidas a uma criança durante o processo de luto.
1. Aceitação: •
Explique aberta e claramente o processo de doença ou morte de um ente querido.
• Não diga coisas como "ele foi embora", "adormeceu" ou
"foi ser um anjinho." • Permitir, se for a vontade da criança, que
participe em cerimônias religiosas ou rituais fúnebres.
2. Dor/experimentação: • Incentive
o seu filho a expressar memórias com referência ao ente querido falecido e os
seus sentimentos sobre a perda, nomeadamente: medo e tristeza e deixe-o chorar.
Não diga coisas como:
"Não chore", "não fique triste", "você tem de ser
corajoso". Isso pode cortar a sua liberdade de expressão e impedir que a
criança possa desabafar. • Mantenha-se física e emocionalmente perto do(a) seu
(sua) filho (a). Esteja sempre disposto a abraçá-lo, ouvi-lo e acarinhá-lo. • O
adulto não deve ser privado de expressar a sua dor em redor da criança. • Fale
sobre a morte usando elementos da natureza. Fale com ele sobre os seus medos e
ansiedades.
3. Reorganização do ambiente • Incentive a criança a participar das tarefas
diárias e hábitos estabelecidos. • Evite mudanças drásticas no ambiente
familiar,
4. Reinvestimento de energia • Faça a criança sentir-se bem, lembrando das
coisas positivas, dos momentos agradáveis passados juntos. Incentive a criança a envolver-se em atividades
positivas e coletivas.
A
honestidade e sinceridade são necessários não apenas na escolha das palavras
com as quais é transmitida a notícia à criança, mas ao longo de todo processo
de luto. Com frequência, os adultos incorrem no erro de tentar proteger as
crianças do seu sofrimento, e não se sentem livres para os manifestar quando
junto delas. O aconselhável será o oposto. Uma criança, ao se deparar com a
morte de alguém, terá dificuldades em lidar com toda a enxurrada de sentimentos
que a invadem, e recorrerá aos seus modelos de referência para procurar
aprender a lidar com sensações tão fortes. Deste modo, o fato de os adultos
partilharem com os mais novos os seus sentimentos, a sua tristeza, o choro,
permite-lhes sentirem-se mais confortáveis e conformados com o que sentem, e em
partilhá-lo com quem os rodeia, não incorrendo na ideia de que esconder os seus
sentimentos é o mais correto a fazer, visto os adultos junto a si o realizarem.
O chorar e a tristeza são salutares, e são o primeiro passo para lidar e
reparar a dor. Com
a premissa de um ambiente de carinho e apoio criado à volta da criança,
possibilita-se a criação de condições favoráveis para partilhar a sua dor e
tristeza... Estas são reações naturais, que variam muito de criança para
criança. O importante é, além de o adulto falar, dar espaço para que a criança
fale, se manifeste, e sinta que tem quem a ouça e a acompanhe na sua dor.
Fonte: Arbulo, B., García, C., Rodríguez, R. //
Fdez. Márquez, L, (Rede Iberoamericana de Psicologia de Emergências - c/ Conde de Peñalver 45, 5to.izq—28006
Madrid (Espanha) - Teléfono: +34-914449020 Fax: +34-913095615 - E-mail:
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