terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Como falar da morte para uma criança?



LUTO EM CRIANÇAS (Arbulo, B., García, C., Rodríguez, R. // Fdez. Márquez, L,)

O luto é o processo de adaptação que restaura o equilíbrio pessoal e familiar rompido com a morte de um ente querido.

O luto pela perda de um ente querido é um processo abstrato e complexo e, por isso,  a forma de o abordar e compreender depende de vários aspectos importantes, tais como a idade da criança, o nível de desenvolvimento cognitivo e os fatores emocionais envolvidos. Quando a morte de um ente querido ocorre, evitar , por todos os meios, que as crianças assistam, vejam ou ouçam os eventos tal como eles sucedem, na expectativa de os proteger desse sofrimento, não é uma prática correta.

A forma como as crianças percebem a morte
As crianças têm seu próprio conceito de morte. Cada criança vê a morte de acordo com sua idade, com a sua formação intelectual, contexto escolar e familiar.  Tal como noutros processos de desenvolvimento, as crianças têm um ritmo individual. É importante perceber que todas as crianças experimentam uma vida única e que têm a sua própria maneira de expressar e controlar seus sentimentos.
Para as crianças de 3- 4 anos a morte é temporária e reversível não estando ainda o conceito definido. Esta ideia é reforçada por verem personagens de desenhos animados que "morrem" e "renascem", sendo esta ideia característica do pensamento mágico desta idade. É, portanto, necessário entender quando nos questionam uma e outra vez se a pessoa (falecida) vai voltar. Na sua mente, a pessoa que morreu ainda come, respira ou vai acordar a qualquer momento para voltar a uma vida plena.
As crianças dessa idade levam as coisas de forma muito literal. Muitas pessoas para explicar a morte de alguém usam expressões como "desapareceu" ou  "está adormecido para sempre " . Isso pode gerar o medo de não ser capaz de acordar. Este gênero de expressões pode alimentar o medo de morrer ou de ser abandonado, e criar mais ansiedade e confusão.        Para ajudar as crianças a compreender o que é a morte, é útil referir-se aos vários momentos da vida quotidiana, onde a morte está presente: na natureza, na morte de um animal de estimação. Nesta fase, a criança expressa a sua percepção da morte através de reações como choro constante. Pode tornar-se irritadiço, perder o apetite, ter dificuldades em adormecer ou ter um sono de pior qualidade por manter, constantemente, a busca (ou espera) por essa pessoa.                                                                                                                                     Entre as idades de 5 e 9 anos, a maioria das crianças começam a perceber que a morte é definitiva e que todas as coisas vivas morrem, mas continuam a pensar que as pessoas que as rodeiam, as mais próximas, os seus entes, nunca morrerão. Depois de 9 anos, as crianças pensam como os adultos, que morrer é natural, físico, universal e irreversível que todos os homens morrem e eles próprios vão morrer um dia. No entanto, ainda não estão plenamente conscientes da verdadeira realidade.
Deve-se permitir, a partir dos 9 anos que a criança assista parte dos rituais funerários. Deve-se permitir que a criança assista e participe no velório, funeral ou enterro. Participar nestes eventos pode ajudar a compreender o que é a morte e começar melhor o processo de luto. Se possível, é aconselhável que antecipe o que vai ver e ouvir e explicar a razão desses rituais. Se a criança não quiser ver o corpo ou participar de qualquer ato, não se deve forçar ou fazê-lo sentir-se culpado por não fazer.

Quando e como dar a notícia.

Embora a tarefa seja muito dolorosa e difícil, o mais adequado é fazê-lo o mais rápido possível. Após a primeira hora de maior drama e confusão, procure um tempo adequado e um local apropriado para explicar o que aconteceu de forma simples e sincera. Por exemplo, podemos dizer: "Tenho uma coisa muito triste para te dizer: o avô estava muito doente e morreu. Por isso já não vai estar mais conosco.”


Explicar como ocorreu a morte.

Deve esforçar-se por fazê-lo com poucas palavras. Por exemplo: Se for um acidente, podemos dizer que ficou muito, muito, muito gravemente ferido, e que os médicos e os enfermeiros fizeram o seu melhor para "consertar" o corpo, mas que às vezes o ferimento é tão grave que os medicamentos não podem curar.
O que podemos dizer se perguntar por quê? Por que está morto? Por que eu? Estas são perguntas difíceis de responder. É certo dizer que nós também fazemos as mesmas perguntas, ou simplesmente que não sabemos a resposta. É bom saber que todos os homens devem morrer e que um dia nos acontece a todos. É importante neste momento permitir às crianças expressarem seus sentimentos e acompanhar suas reações e emoções, deixando-as confortáveis e seguras.

Recomendações sobre o luto infantil

Existem várias alternativas que podem ser fornecidas a uma criança durante o processo de luto.
1. Aceitação: • Explique aberta e claramente o processo de doença ou morte de um ente querido. • Não diga coisas como "ele foi embora", "adormeceu" ou "foi ser um anjinho." • Permitir, se for a vontade da criança, que participe em cerimônias religiosas ou rituais fúnebres.
2. Dor/experimentação: Incentive o seu filho a expressar memórias com referência ao ente querido falecido e os seus sentimentos sobre a perda, nomeadamente: medo e tristeza e deixe-o chorar.
Não diga coisas como: "Não chore", "não fique triste", "você tem de ser corajoso". Isso pode cortar a sua liberdade de expressão e impedir que a criança possa desabafar. • Mantenha-se física e emocionalmente perto do(a) seu (sua) filho (a). Esteja sempre disposto a abraçá-lo, ouvi-lo e acarinhá-lo. • O adulto não deve ser privado de expressar a sua dor em redor da criança. • Fale sobre a morte usando elementos da natureza. Fale com ele sobre os seus medos e ansiedades.
3. Reorganização do ambiente • Incentive a criança a participar das tarefas diárias e hábitos estabelecidos. • Evite mudanças drásticas no ambiente familiar,
4. Reinvestimento de energia • Faça a criança sentir-se bem, lembrando das coisas positivas, dos momentos agradáveis passados juntos.  Incentive a criança a envolver-se em atividades positivas e coletivas.
               
A honestidade e sinceridade são necessários não apenas na escolha das palavras com as quais é transmitida a notícia à criança, mas ao longo de todo processo de luto. Com frequência, os adultos incorrem no erro de tentar proteger as crianças do seu sofrimento, e não se sentem livres para os manifestar quando junto delas. O aconselhável será o oposto. Uma criança, ao se deparar com a morte de alguém, terá dificuldades em lidar com toda a enxurrada de sentimentos que a invadem, e recorrerá aos seus modelos de referência para procurar aprender a lidar com sensações tão fortes. Deste modo, o fato de os adultos partilharem com os mais novos os seus sentimentos, a sua tristeza, o choro, permite-lhes sentirem-se mais confortáveis e conformados com o que sentem, e em partilhá-lo com quem os rodeia, não incorrendo na ideia de que esconder os seus sentimentos é o mais correto a fazer, visto os adultos junto a si o realizarem. O chorar e a tristeza são salutares, e são o primeiro passo para lidar e reparar a dor.                                            Com a premissa de um ambiente de carinho e apoio criado à volta da criança, possibilita-se a criação de condições favoráveis para partilhar a sua dor e tristeza... Estas são reações naturais, que variam muito de criança para criança. O importante é, além de o adulto falar, dar espaço para que a criança fale, se manifeste, e sinta que tem quem a ouça e a acompanhe na sua dor.


Fonte:  Arbulo, B., García, C., Rodríguez, R. // Fdez. Márquez, L, (Rede Iberoamericana de Psicologia de Emergências -   c/ Conde de Peñalver 45, 5to.izq—28006 Madrid (Espanha) - Teléfono: +34-914449020 Fax: +34-913095615 - E-mail: secretaria@psicofundacion.es www.psicofundacion.es) 



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