Reportagem do GLOBO contou recentemente
a história de uma menina de Goiânia, de apenas 9 anos, que causou polêmica ao
se definir como “blogueira fitness infantil" e ao expor sua rotina de
exercícios físicos na rede social Instagram. Em menos de 24 horas após a
publicação da matéria, seu perfil já contava com 22 mil seguidores acompanhando
as fotos da menor de idade trajando top e short.
Polêmica semelhante ronda as crianças
americanas. Na maioria das cidades dos Estados Unidos cresce o mercado de spa
de um dia para os menores de idade. Os spas oferecem tratamentos de massagens,
manicure e maquiagem, que tanto agradam às mulheres — mas desta vez tendo como
clientes meninas que nem mesmo chegaram à menstruação. “Não quero que minha
filha pense que, se eu disser ‘não’, isso significa que não a amo", disse
ao jornal “The New York Times” uma das mães que acompanhava a filha no spa.
Neste começo de
século, em que a infância e a adolescência são valorizadas em excesso e em que
a quantidade de “nãos” aos filhos escasseou, há uma dúvida na cabeça dos pais
quanto aos limites adequados para cada idade de crianças e jovens.
Ainda nos Estados Unidos, Lenore Skenazy
ganhou a nada nobre alcunha de “pior mãe do mundo” ao revelar a um jornal local
permitir que seu filho mais novo, de 9 anos, andasse de metrô sozinho em Nova
York. Lenore foi alvo de uma enxurrada de críticas, incluindo uma ameaça de
prisão por colocar menores em risco. Em resposta, ela escreveu o livro
“Crianças livres: como criar filhos seguros e autoconfiantes sem pirar de
preocupação” (em tradução livre para o português) e está à frente do programa
de TV “A pior mãe do mundo”, em que acompanha a rotina de crianças vítimas da
superproteção dos pais. Segundo Lenore, “eles têm medo que toda vez que não
estão supervisionando diretamente os filhos estejam colocando a criança em
perigo”.
E no Brasil? Como
preparar e liberar os filhos para a vida, sabendo que a realidade de nosso país
impõe desafios diários a um amadurecimento saudável com tantos assaltos, balas
perdidas e todo tipo de insegurança? Qual a hora certa de deixar um filho pegar
um ônibus ou ir à praia sozinho? E mais: como não estimular a vaidade em uma
época de narcisismo exacerbado, de selfies e simulacros de vidas ideais nas
redes sociais?
Há uma tendência nos
jovens contemporâneos de se sentirem mais vítimas das circunstâncias e menos no
controle de suas vidas. Este comportamento é uma porta de entrada para a depressão e a
ansiedade infantis. O primordial é que
os pais entendam que crianças precisam aprender a assumir riscos rotineiros,
incluindo suas possíveis consequências. Isso as deixam mais fortes para
assumirem tarefas de maior relevância. Portanto, aos pais, cabe dosar liberdade
e proteção, adequadas a cada faixa etária, para que os filhos exerçam a
responsabilidade e se tornem adultos seguros e preparados.
Fabio Barbirato é psiquiatra infantil

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