terça-feira, 14 de julho de 2015

Lições da pior mãe do mundo


Reportagem do GLOBO contou recentemente a história de uma menina de Goiânia, de apenas 9 anos, que causou polêmica ao se definir como “blogueira fitness infantil" e ao expor sua rotina de exercícios físicos na rede social Instagram. Em menos de 24 horas após a publicação da matéria, seu perfil já contava com 22 mil seguidores acompanhando as fotos da menor de idade trajando top e short.
Polêmica semelhante ronda as crianças americanas. Na maioria das cidades dos Estados Unidos cresce o mercado de spa de um dia para os menores de idade. Os spas oferecem tratamentos de massagens, manicure e maquiagem, que tanto agradam às mulheres — mas desta vez tendo como clientes meninas que nem mesmo chegaram à menstruação. “Não quero que minha filha pense que, se eu disser ‘não’, isso significa que não a amo", disse ao jornal “The New York Times” uma das mães que acompanhava a filha no spa.
Neste começo de século, em que a infância e a adolescência são valorizadas em excesso e em que a quantidade de “nãos” aos filhos escasseou, há uma dúvida na cabeça dos pais quanto aos limites adequados para cada idade de crianças e jovens.
Ainda nos Estados Unidos, Lenore Skenazy ganhou a nada nobre alcunha de “pior mãe do mundo” ao revelar a um jornal local permitir que seu filho mais novo, de 9 anos, andasse de metrô sozinho em Nova York. Lenore foi alvo de uma enxurrada de críticas, incluindo uma ameaça de prisão por colocar menores em risco. Em resposta, ela escreveu o livro “Crianças livres: como criar filhos seguros e autoconfiantes sem pirar de preocupação” (em tradução livre para o português) e está à frente do programa de TV “A pior mãe do mundo”, em que acompanha a rotina de crianças vítimas da superproteção dos pais. Segundo Lenore, “eles têm medo que toda vez que não estão supervisionando diretamente os filhos estejam colocando a criança em perigo”.
E no Brasil? Como preparar e liberar os filhos para a vida, sabendo que a realidade de nosso país impõe desafios diários a um amadurecimento saudável com tantos assaltos, balas perdidas e todo tipo de insegurança? Qual a hora certa de deixar um filho pegar um ônibus ou ir à praia sozinho? E mais: como não estimular a vaidade em uma época de narcisismo exacerbado, de selfies e simulacros de vidas ideais nas redes sociais?
Há uma tendência nos jovens contemporâneos de se sentirem mais vítimas das circunstâncias e menos no controle de suas vidas. Este comportamento é uma porta de entrada para a depressão e a ansiedade infantis. O primordial é que os pais entendam que crianças precisam aprender a assumir riscos rotineiros, incluindo suas possíveis consequências. Isso as deixam mais fortes para assumirem tarefas de maior relevância. Portanto, aos pais, cabe dosar liberdade e proteção, adequadas a cada faixa etária, para que os filhos exerçam a responsabilidade e se tornem adultos seguros e preparados.

Fabio Barbirato é psiquiatra infantil

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