terça-feira, 14 de julho de 2015

Preconceito Infantil: quando começa?

                          

(...) Na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, Juliana*, hoje com dez anos, desde pequena implica quando sua babá, obesa, senta em sua cama. "Tira essa bunda gorda daí." Ela também não perdoa o fato de a moça, que trabalha na casa desde que a menina nasceu, dizer algumas palavras erradas. "Não é 'questã', é 'questão'." A babá tenta contemporizar: "É que eu me esqueço". Juliana não se comove: "Não, é que você é burra".                                                 
É mais comum do que se pensa. Crianças, mesmo as mais novas, demonstram preconceito e dificuldade para aceitar as diferenças. Além do racismo, é vítima comum da sinceridade cruel da meninada qualquer um que apresente uma característica "estranha" ao seu mundo, como crianças mais altas, gordinhos ("baleia" e "saco de areia"), os que usam óculos ("quatro-olhos") e os baixinhos ("tampinhas").  Sem contar os tímidos.                                                                                                                                                                                 
Nos Estados Unidos, o preconceito na infância mobiliza pesquisadores e é tema de inúmeras pesquisas. No Brasil, é raro um estudo voltado à intolerância entre os pequenos, apesar de casos como o de Juliana serem frequentes, segundo pais, psicólogos, pediatras e professores entrevistados pela Revista. Calcula-se que até os seis anos de idade quase metade das crianças já teve atitudes preconceituosas, de acordo com a Anti-Defamation League (liga antidifamação), organização sem fins lucrativos dos EUA.                                               
A questão que mobiliza pais e professores é: como aqueles a quem costumamos encarar como anjinhos sem maldade podem de repente usar termos tão monstruosos? Por que o preconceito aparece mesmo quando pais e mães não são preconceituosos? É o caso da dona-de-casa Marina*, 26. Seu filho, Gustavo*, não tinha nem três anos quando saiu com esta: "Mãe, por que o Henrique é preto? Eu posso brincar com ele?" Ele estava diante de seu primo, que tem a mesma idade e é negro. Marina, seu marido e o filho são morenos. Além de ter parentes negros, Gustavo mora em Arthur Alvim, bairro da periferia da zona leste de São Paulo, e convive com toda a riqueza da miscigenação brasileira. "Eu e meu marido não temos preconceito, e o Gustavo sempre se relacionou com negros. Não sei por que teve essa dúvida. Na hora, respondi: 'Claro que você pode brincar com ele. As pessoas, independentemente da cor, são boas'", diz Marina.

De onde veio isso? 
                                                                                                                                                                                                                        Estudos apontam que as crianças adquirem consciência das diferenças raciais, em média, dos três aos cinco anos, e, com o tempo, passam a atribuir julgamentos aos diferentes grupos, com base na observação do meio em que vivem. Portanto, é provável que qualquer pai passe por situações semelhantes à enfrentada pela mãe de Gustavo. E, não raro, será um momento de saia justa, uma vez que, quanto mais nova a criança, maior a dificuldade de contê-la. "Ela ainda não tem maturidade para saber o que é adequado ou não. Isso irá se firmar com o passar dos anos e, por volta da adolescência, ela será mais capaz de controlar o que deve ou não dizer e fazer. A espontaneidade infantil existe para o bem e para o mal", diz o psiquiatra Fernando Ramos, do Rio de Janeiro, membro do Departamento de Infância e Adolescência da Sociedade Brasileira de Psiquiatria. Ele e outros estudiosos defendem a ideia de que o preconceito é sempre aprendido, dentro ou fora da família. Pode ser na escola, na vizinhança, na televisão. Por isso, ainda que os pais não sejam - ou não se vejam como - preconceituosos, seus filhos podem surpreendê-los com ofensas e xingamentos a alguém que apresente alguma diferença. "É normal que, de forma crescente, a criança seja influenciada por outras relações sociais que não a família. Pode ser que tenha pais abertos, mas absorva o preconceito de colegas na escola, filhos de pais preconceituosos. A gente vive em um mundo onde o preconceito ainda domina", aponta Ramos.                                                                                                                                                                                  
O preconceito pode ser transmitido de forma sutil, como lembra o pediatra de Porto Alegre Ricardo Halpern, presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria. "Mãe e filha estão de mãos dadas, por exemplo, e, ao cruzarem um homem negro, a mão da criança é apertada com um pouco mais de força. Outra situação: pai ou mãe se encontram com uma pessoa branca e outra negra. Beijam a primeira e não a segunda. É o suficiente para que a antena parabólica da criança capte os sinais." Fora isso, não passa despercebido pelas crianças o fato de as bonecas mais badaladas e as princesas dos contos de fada serem loiras e de olhos azuis e de todas as modelos famosas serem magérrimas. Todavia não é unânime a ideia de que o preconceito na infância esteja necessária e exclusivamente ligado a um exemplo negativo dentro ou fora de casa. Uma linha da psicanálise (kleiniana) relaciona atitudes preconceituosas nos pequenos com estruturas emocionais inatas, como o medo, a agressividade e a incapacidade de elaborar um conceito. O preconceito é visto como parte do crescimento e só irá permanecer se encontrar eco no universo da criança. Numa elaboração mais filosófica, o preconceito na sociedade poderia ser considerado algo infantil, como se fosse uma criança não trabalhada.                                                                                                                                                                                       
"A criança pequena está inundada por novos estímulos e sensações que desconhece. Vive momentos de angústia e pode colocar isso para fora com um xingamento ou um palavrão, que escutou de um adulto. Seu mundo interno é formado por idas e vindas, e a personalidade vai se formando", explica a psicanalista infantil Anne Lise Silveira Scappaticci, pesquisadora da Unifesp. Segundo ela, uma atitude preconceituosa na infância também pode estar ligada à descoberta dos limites. "Quando uma criança de três, quatro anos diz que a babá é preta e feia, ela também quer ver a reação dos pais e da própria babá. É um teste de limites, uma busca para saber o que é certo e errado." 
Como tudo relacionado à educação dos filhos, não há uma receita pronta para pais que enfrentam uma situação de preconceito com suas crianças, sendo elas vítimas ou agressoras. Muitas vezes, um incidente presenciado pelos pais ou professores é só a ponta do iceberg. Diante da complexidade do assunto, é preciso tentar entender ao máximo o que se passa na cabecinha dos filhos. "Partir direto para uma censura forte pode não ser a solução, porque a criança se intimida, e os pais não conseguirão saber o que ela está pensando. É importante chamar para uma conversa e investigar que questões a levaram a ofender a outra pessoa. Deve-se olhar o fato de forma ampla", sugere o psiquiatra infantil Fernando Ramos.                                                                                 
O preconceito entre crianças tem um forte potencial destrutivo para as vítimas, e pais e professores devem agir, segundo o pediatra Halpern. "As crianças podem se sentir segregadas, ter seus potenciais reduzidos e sérios problemas de auto-estima. A omissão de pais e professores pode reforçar o preconceito no grupo", acredita Halpern. E nem sempre as vítimas chegarão a casa chorando e contando aos pais de que forma foram ofendidas. "Diante de uma intimidação, elas podem se calar. Por isso, os pais devem estar atentos a alterações emocionais e de comportamento", diz o psiquiatra Fernando Ramos. Com os ofensores, é bom ser compreensivo, o que não significa permissivo, conforme ressalta a psicanalista Anne Lise Scappaticci. "Compreender não quer dizer deixar para lá, mas acolher aquela angústia e ensinar a criança a pensar sobre aquilo." E, que fique claro: mandar pedir desculpas nunca é demais.

Convido todos a conversarem com os seus filhos sobre seus amigos de classe tentando visualizar as imagens que já tem construídas acerca deles. Depois reflita com seu (sua) filho (a) as qualidades dos mesmos, valorizando o SER de cada um e não a imagem e a aparência.


Fonte: http://www.udemo.org.br/destaque_67.htm - Matéria retirada do jornal Folha de São Paulo, de 25/11/07

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